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A origem do Collie


Por Dr. Rubens Vieira Pinto

É comum dizer que a origem da nossa raça se perde no tempo. Todos os artigos e livros que li a respeito do assunto, com exceção de um único, ratificam, sempre, essa idéia. Influenciado por isso cheguei até a escrever algo denominado "A nebulosa origem do Collie".

Hoje, penso diferentemente. A alusão à nebulosidade tem sentido no que se refere aos cães pastores, de uma maneira geral. Estes sim, têm existência antiqüíssima. Rebanhos de ovelhas existiam já nos tempos bíblicos, e não há duvidas de que desde então, lá estavam os cães pastores olhando por eles. Tendo nossa raça, surgido do aperfeiçoamento de cães pastores criados na Escócia, como veremos logo a diante, e como os pastores vem da antiguidade, surgiu o entendimento de que não se pode precisar o início da vida do Collie. Não é verdade. Isso pode ser afirmado, como já dito, no que diz respeito aos pastores em geral. Mas nossa raça não tem origem obscura. Ela é moderna, com mais ou menos duzentos anos de existência. Começou aparecer na face da terra no começo do século XIX, evoluindo para se torna a maravilhosa raça que é hoje, durante o transcorrer desse século e do XX. Cheguei a tal conclusão lendo um livro de um escritor inglês – J. H. Walsh (que escrevia sob o pseudônimo de "Stonehenge") e que encontrei num sebo, no Centro de São Paulo, curiosamente perdido entre obras jurídicas. O livro estava bem velho, amarelado, mas muito esclarecedor. Mr. Walsh o escreveu na segunda metade do século XIX; era um estudioso das raças caninas e um dos primeiros juizes de cachorros que apareceram no mundo. O que disse é digno de toda fé. Ele mostra, nas primeiras páginas do livro a estampa de um cão pastor do ano de 1790 (século XVIII). Não era ainda um Collie. Tratava-se de um animal pequeno, de cabeça larga, focinho curto e fino, olhos arredondados orelhas dobradas, mas muito pesadas, cauda enrolada, ossos finos e maus aprumos. Conclusão lógica: no século XVIII não existia o Collie na face de nosso planeta. A raça não é, portanto, antiga, pois se duzentos anos são muito tempo na vida de um homem ou de um cão, não é nada no que diz respeito da história da raça humana ou à do Collie na Terra. Não importa se os pastores em geral são mesmo antiqüíssimos. O Collie não. Ninguém poderá dizer, por exemplo, que o Dobermann é uma raça antiga, somente porque as que o formaram são de outros tempos. Luiz Dobermann chegou ao seu cão atual fazendo cuidadosa seleção de várias raças antigas.

As coisas assim se deram como conta Stonehenge, no começo do Século XIX havia muitos rebanhos de ovelhas espalhados pela Inglaterra e Escócia. E cães pastores trazidos para a ilha, possivelmente pelos romanos e celtas, durante as invasões, cuidavam dos animais. No começo, a única preocupação era com a capacidade de trabalho dos cães. Não havia menor interesse pelo belo. Mas, diz Stonehenge, já pelo início do século XIX, os escoceses (não os ingleses que continuavam pensando apenas na capacidade de pastoreio), começaram a aperfeiçoar o tipo de seus cães, a se preocuparem com sua beleza. E, conta ele que entre os cães que trabalhavam nos campos altos da Escócia, vez ou outra, surgia um mais bonito, com melhor pelagem e cabeça mais refinada. Tal animal era então, geralmente doado aos senhores das terras, que começaram a seleção, preocupados já com o aspecto físico do cão. Mostra o livro, em seguida, a estampa de um animal nascido em meados do século XIX, na Escócia, muito mais bonito que aquele de 1790. Maior, cabeça longa, bonita pelagem, ossos e pernas melhores, elegante pescoço, lembrando já um Collie. E Stonehenge se refere a ele como uma raça nascente – o Scotch Collie. E já nessa época (metade do século XIX) começaram, na Inglaterra, as exposições de beleza, e a aparecer nas mostras o "Scotch Collie" e depois simplesmente, o Collie. Foi fundado o The Kenel Club e os ingleses criadores de Collies passaram a procurar cães bonitos no seu vizinho do Norte; e então, a selecionar também buscando o tipo. Por esse tempo, mais precisamente no final do século XIX, os criadores dos Estados Unidos, já interessados na raça, iam adquirir Collies na Inglaterra. O Collie Clube da América foi fundado em 1886. Os americanos chegaram a pagar verdadeiras fortunas por um Collie. Mas naquela época, nem sempre conseguiam levar para sua terra o que queriam. Os ingleses não gostavam de dispor de seus melhores cães. Com o advento da primeira guerra, porém, quando houve escassez de comida na Inglaterra, interrupções das exposições, foram cedidas excelentes animais para os americanos, que tiveram a oportunidade de alcançar grande progresso na criação de seus Collies. Somente na década de 1920 os ingleses voltaram a intensificar a criação, surgindo famosos canis da raça como: Beulahs e Ladpark. Assim, resumindo, durante os séculos XIX e XX, escoceses (os verdadeiros iniciadores da raça), ingleses e americanos, estes a partir do final do primeiro século citado, promoveram uma rápida e criteriosa seleção, chegando ao majestoso animal que o Collie é hoje. Mas antes dos referidos séculos não existia no mundo nossa linda e querida raça, não se podendo afirmar, portanto, que sua origem se perde na história dos tempos.
É verdade que na primeira metade do século XIX, escreve Stonehenge, os escoceses fizeram cruzamentos com outras raças, numa tentativa de aprimoramento mais rápido. Usaram Setter Irlandês e o Gordon Setter, para um possível melhoramento da cor do collie, o Borzoi, para alongar mais a cabeça. Mas tais acasalamentos foram infelizes e não trouxeram benefício9s para a criação, muito pelo contrário, foram danosos, tanto que os primeiros padrões diziam "tonalidades avermelhadas do setter são muito indesejáveis..." e, ainda "crânios fugidios, narizes romanos do borzoi dever ser severamente penalizados..." Prova que tais cruzamentos em nada beneficiaram o Collie é que pararam de ser feitos há mais de 150 anos... E foi, exatamente, desde meados do século XIX para cá que os collies começaram seu aperfeiçoamento da, mas sensível e rápida maneira. Essa é minha opinião, apesar de alguns autores acharem que referidas raças, além de outras, inclusive o Labrador, tiveram influência na formação do Collie, e outros insistirem que a origem da raça é um verdadeiro mistério... Tal conclusão foi alcançada não apenas em virtude de pesquisas feitas, mas principalmente, com base no que3 escreveu alguém que tinha pleno conhecimento dos fatos, pois participou dos mesmos e os viveu além de entender muito bem da matéria que tratava.

   
   

 

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